
Na foz do Rio Doce, a vila de Regência, no litoral de Linhares, vive o epicentro de uma crise socioambiental que parece não ter fim. Quase 11 anos após a chegada da lama de rejeitos do desastre de Mariana (MG), a dinâmica da pesca artesanal e a vida dos moradores locais continuam profundamente alteradas, sem que o ecossistema marinho e estuarino tenha se recuperado.
A realidade enfrentada pelas famílias pesqueiras ganha contornos científicos dramáticos com pesquisas da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Os estudos revelam que espécies nativas de peixes da Bacia do Rio Doce seguem apresentando severos problemas reprodutivos e alterações microscópicas no sistema nervoso desde a fase larval. Enquanto isso, espécies invasoras proliferam, resultando em escassez de pescado, perda de renda e insegurança alimentar diária para a população de Regência.
A essa contaminação histórica soma-se agora o alerta emitido para a previsão de um "super El Niño" no biênio 2026/2027. O fenômeno climático deve trazer períodos prolongados de estiagem, altas temperaturas e aumento no risco de queimadas para toda a região Norte do Espírito Santo.
A iminência de uma seca severa acende o sinal vermelho para o abastecimento de água e para a produção agrícola no interior de Linhares. Embora o governo estadual tenha criado um comitê integrado de emergência para ações de contingência — como o envio de carros-pipa e perfuração de poços —, especialistas e moradores apontam que tais iniciativas são paliativas diante da dimensão da crise hídrica que se aproxima.
Além das perdas econômicas, a memória da lama e a suspeita de aumento de casos de doenças ligadas à contaminação por rejeitos da Samarco/Vale/BHP mantêm a comunidade em estado de constante apreensão.
Para responder a essas incertezas, foi criado recentemente o Observatório Capixaba de Informações e Dados Estratégicos para a Vigilância, Assistência e Resiliência do SUS nos Municípios Atingidos. A iniciativa prevê integrar dados sobre adoecimento e mortalidade na foz do rio, além de implantar exames de biomonitoramento nos moradores de Regência para identificar a presença e o impacto de metais pesados no organismo humano.
Enquanto aguardam indenizações plenas e a efetivação das medidas de saúde, os pescadores e moradores de Regência continuam cobrando transparência na aplicação das verbas de repactuação do Rio Doce, para que os investimentos cheguem a quem realmente sofre os efeitos diretos no litoral de Linhares.