Uma organização criminosa sediada no Rio de Janeiro que usava dados pessoais vazados e até biometria facial para aplicar o "golpe do Vale Gás" foi desmantelada e teve integrantes presos pela Polícia Civil. O grupo fez vítimas em diversos municípios do Espírito Santo, incluindo um idoso de 68 anos, morador de Linhares, que sofreu um prejuízo de R$ 41.613,92.
A investigação aponta que a quadrilha também fazia vítimas em Minas Gerais e Alagoas, com uma movimentação estimada em cerca de R$ 2 milhões em fraudes desde agosto de 2024.
Como agiam os golpistas
A abordagem era fria e calculada. Os criminosos ligavam ou enviavam mensagens por WhatsApp prometendo um suposto benefício social. Munidos de CPF, endereço, dados familiares e até do horário em que a vítima ficava sozinha, eles enviavam uma integrante à residência com o pretexto de realizar um "cadastro". No local, colhiam documentos, fotos e o reconhecimento facial da vítima.
Com o acesso biométrico em mãos, os estelionatários abriam contas digitais, faziam a portabilidade de aposentadorias, antecipavam o 13º salário e contratavam empréstimos consignados de até R$ 30 mil — tudo sem autorização.
O grupo tinha divisão corporativa de tarefas e usava jargões próprios: as vítimas eram chamadas de "clientes", o local de reuniões de "escritório" e as fraudes de "contratos".
Estrago em Linhares e cidades capixabas
Além do idoso em Linhares que perdeu mais de R$ 41 mil, a Polícia Civil contabilizou 58 boletins de ocorrência ligados à quadrilha no Espírito Santo somente em 2025.
Em Colatina, uma idosa de 64 anos perdeu R$ 78.986,71. Em Cachoeiro de Itapemirim, uma idosa de 71 anos teve prejuízo de R$ 94.421,88. Em Vila Velha, outra idosa de 74 anos perdeu R$ 42 mil, enquanto em Guarapari uma mulher cega e com deficiência também foi atacada sob a promessa de uma cesta básica. Apenas nos casos com valores contabilizados, o rombo no estado chega a R$ 257.022,51.
Lideranças presas e estrutura do grupo
Autodenominada "Tropa Milhões CPX", a quadrilha operava a partir de um "escritório" no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
Nas operações policiais, foram presos Joyce Máximo da Silva, apontada como a executora de campo responsável por ir às casas coletar a biometria, e Rafael de Jesus Guarany de Oliveira, motorista que garantia a segurança das investidas. Outros oito integrantes, com idades entre 20 e 35 anos, foram indiciados por estelionato contra idosos e organização criminosa.
O chefe do Deic, delegado Gabriel Monteiro, ressaltou que a prisão dos envolvidos e a divulgação da dinâmica do crime servem como alerta público para evitar que novos idosos sejam vítimas de golpes com dados vazados.