
Preso nesta quarta-feira (28), o empresário do ramo do café Ademar Valani é o alvo da Operação Rebrota, deflagrada pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES). Ex-vereador de Rio Bananal, ele é investigado por suspeita de fraudes tributárias no comércio de café conilon, esquema que envolveria cerca de R$ 36,6 milhões em créditos tributários.
Perfil do investigado
Valani exerceu mandato de vereador em Rio Bananal de 2009 a 2016 e hoje administra uma empresa no distrito de Primavera, na zona rural do município. Segundo o MPES, ele teria recorrido a notas fiscais emitidas por empresas de fachada para simular negócios e deixar de recolher o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).
Justiça aceitou denúncias e decretou prisão
Documentos judiciais mostram que a 3ª Vara Criminal de Linhares recebeu denúncias contra o empresário por crimes contra a ordem tributária. A Justiça também determinou a prisão preventiva e autorizou o bloqueio de bens e valores. Nos seis processos analisados pela reportagem, os limites de bloqueio somam cerca de R$ 4,6 milhões, com o objetivo de preservar recursos para eventual reparação de prejuízos aos cofres públicos.
Ao decidir, a Justiça levou em conta indícios do uso de documentos fiscais inidôneos e o risco de repetição das condutas. Vale destacar que o recebimento de uma denúncia não é condenação: significa apenas que o juiz viu elementos suficientes para o processo seguir, e o empresário poderá se defender.
Como funcionaria o esquema
De acordo com a fiscalização, a empresa teria registrado compras de café conilon em grão cru com notas de empresas consideradas inidôneas, dando aparência de legalidade a negócios que não teriam ocorrido de fato. Uma das práticas apontadas é a chamada “venda casada”: as notas indicam compra e venda, mas a mercadoria nunca entra nem sai dos estabelecimentos citados.
Em uma apuração sobre operações de maio a julho de 2022, foram negociadas 5.870 sacas com outra empresa, e 4.468,83 sacas, ligadas a 19 notas fiscais, foram consideradas simuladas. Em diligência no endereço cadastrado, os fiscais encontraram somente dez sacas de café.
Outra investigação, referente a outubro de 2022, identificou dez negociações de 2.534 sacas com uma segunda empresa, das quais 1.017 sacas, em quatro notas, seriam fictícias. Em ação ligada a março de 2024, a suspeita incluiu também pimenta-do-reino.
De onde vêm os R$ 36,6 milhões
O ex-vereador já responde a três ações penais por crimes tributários, com créditos de cerca de R$ 14,7 milhões. Mais recentemente, foi denunciado em outras 12 ações, nas quais os créditos inscritos em dívida ativa chegam a R$ 21.975.201,60. A soma resulta nos R$ 36,6 milhões. Segundo o MPES, a continuidade das supostas irregularidades, mesmo com investigações em curso, pesou na deflagração da Rebrota.
Não é a primeira operação
Valani já havia sido alvo da Operação Torrefação, conduzida pelo Gaeco e também ligada a fraudes tributárias no setor cafeeiro. A Rebrota surge em meio a outras investigações sobre o comércio de café no estado, como a Operação Recepa, de novembro de 2025, que denunciou 27 pessoas por organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, com prejuízo estimado em R$ 466 milhões. Esse valor não integra os R$ 36,6 milhões da Rebrota.
Defesa
A reportagem procurou a defesa do empresário, que informou que não vai se manifestar.
A operação foi conduzida pelo Gaesf, pelo Gaeco Norte e pela Promotoria de Justiça de Rio Bananal, com apoio de três agentes da Assessoria Militar do MPES e dois policiais militares.